Você escolhe o filme. Embora eu não tenha nenhum problema em ir sozinha, tenho também essa mania de ficar economizando filmes para ver com os amigos. Daí acabo indo muito mais nos horários que mais me dão dor-de-cabeça, tipo hora do rush, que são os que meus amigos operários conseguem frequentar – e me arrependo.
Voltando... Você escolhe o filme. Você não gosta de bilheteria, então compra pela internet. Aparecem todas aquelas poltroninhas verdes e começa aquele mapa mental de qual o melhor ângulo e qual a maior chance de sentar sem ninguém por perto. Eu não era sociopata desse jeito, mas com o tempo, de duas, uma: ou eu comecei a ficar mas sensível, ou aumentou muito o número de idiotas no mundo. Estou mais para a segunda hipótese. Quando digo "no mundo", é porque achava que a imbecilidade social era especialidade brasileira, mas esse fim de semana tudo mudou.
Meu amigo me liga perguntando se não quero ir à pré-estréia de TinTin. É legendado, então criancinhas histéricas estão fora de vista. A gente faz toda a operação supracitada e vai direto pra sala.
Começam os trailers. A sala já está quase cheia, e tem até muitas crianças, mas zero de barulho. Por dentro, estou gargalhando de orgulho e alegria. Pelo menos até chegar o inglês. O inglês com três filhos em escadinha de três a oito anos e sua mãe idosa. E eis que o inglês começa a gritar, junto com a prole e a progenitora, já que aparentemente nenhum deles escuta direito.
Qual a grande importância de ele ser inglês? Tenho essa impressão muito forte de que na nossa terra a noção de sociedade é mitigada. A gente está muito imbuído dos restos da cultura capitalista que cabem aos
Então um belo dia a Amanda vai visitar Londres e o mundo pára. Ela sai para passear de madrugada, vê um pessoal saindo da balada e não tem um piu. Tem inclusive aquelas placas que de vez enquando a gente vê em São Paulo, do gênero "respeite a vizinhança", bem na porta dos estabelecimentos. E quando alguém não respeita, vem um outro alguém dar pito. Daí ela pensa "por que na minha terra, onde os dias não cinzas e o frio é mais ameno, os bêbados também não jogam as latinhas de cerveja meticulosamente dentro das lixeiras na rua?" e vem aquela imagem dela mesma, tediosamente sóbria carregando o saquinho de cocô do cão quadras a fio até encontrar uma lixeira semi-quebrada para depositá-lo. Quem se importa? Ninguém se importa, logo, ninguém põe lixeiras e se não tem lixeiras, as pessoas não vão saber do que sentir falta – e a ciranda continua rodando repetitiva e tão sóbria quanto eu.
Embora a minha experiência no país do cara mal-educado se resuma a uma cidade e seis dias, eu tenho essa sensação muito forte de que nas salinhas escuras de lá ele teria ficado de boca fechada. Na minha salinha escura, ninguém se incomodou, porque já é tão normal!
Daí muitos dias depois, remoendo a ideia, eu sento emburrada na frente do meu computador com uma única certeza: não fiz nem saberia fazer nada a respeito, fora reclamar. Reclamei pro bloody bastard, que convenientemente ignorou, como várias pessoas ignoram quando reclamo do cocô dos cachorros delas na rua, ou da bituca do cigarro, mesmo. Porque, na verdade, sou eu que sou mal-humorada, não é? Somos nós, os reclamões, as exceções, que estamos fora de contexto.
...
né?
...
Ou será que quando o cocô é na porta do cara que faz barulho na hora errada, ele também protesta?
E ainda por cima não gostei do filme.
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