Querido psiquiatra, hoje eu abri os olhos sorrindo. Assim. Sem mais.
Fiquei inconformada. O que foi que me escapou?
O céu azul, as borboletas felizes, os namorados de mãos dadas? Nunca liguei muito para nenhuma das anteriores.
Me senti indecente. O que eu faço com isso? Acho que as pessoas até me olhavam diferente na rua. "Qual é a da guria com cara de boba, que foi comprar pão com ares de propaganda de margarina?".
Não sei para quem perguntar, então fica aqui.
Estava com medo de virar cyber-louca. Comecei, toda vez que uma coisa me irritava, a querer vir pro blog. Daí lembrei daqueles turistas que passeiam por cidades estrangeiras com a câmera grudada no olho. Ao fim da viagem, acho que se você perguntar pra esses caras o que eles viram, vão ficar sem ter o que dizer e abrir pra te mostrar um álbum de setecentas e trinta e seis fotos da viagem de uma semana e meia.
Se estressar faz parte da vida moderna. Tenho uma amiga que se estressa com o trabalho, um ex-wanna-be-boyfriend que se estressava com o calor, minha irmã de cinco anos de idade se estressa com trânsito e a minha mãe se estressa com a minha irmã estressada com o trânsito. Provavelmente esse pessoal todo só se irrita e eu estou definindo como estresse, mas o ponto é que ninguém está totalmente em paz. Eu, por exemplo, estou começando a suspeitar de que tenho algum tipo de sociopatia. Porque o número de vezes que me dá vontade de entrar aqui para xingar a humanidade vem começando a me assustar.
[Aliás, minha mais nova teoria é de que o estresse, mais que um mal da vida moderna, é um mal da vida em sociedade. E "sociedade" pode ser quando o primeiro neandertal viu o coleguinha de caverna pela primeira vez.]
E aí se toda vez eu quiser resolver meus incômodos com uma válvula de escape, assumindo que a válvula de escape de fato funcione, não vou viver plenamente a experiência de estar extremamente incomodada com algo. Começo a imaginar que, se a oportunidade se põe tantas vezes diante de mim, alguma coisa eu tenho que tirar dela.
Ou então estou só engolindo e regorgitando um discurso pseudo-cristão do sofrimento que enobrece para ser um pouco mais Poliana na vida.
Saúde!
e por falar em Poliana...
Não me julgue mal, não, amei! Quero pra mim (a ideia, as roupas e o batom vermelho)!